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O Gong Fu (Kung Fu) tem-se revelado ao ocidente de diferentes formas, quer por acção das tríades como no cerco a Bei Jin (Pequim) durante a Revolta dos Boxers ou nas lutas entre gangs (Tong) nas cidades de Los Angeles e de San Francisco; quer pelo impacto explosivo cinematográfica de Li Xiao Long (Bruce Lee). É pela continuação desta visão cinéfila de Hong Kong e de Hollywood, que o Gong Fu hoje em dia se apresenta de uma forma mais imediata, mas por vezes incompleta ou distorcida nos seus ideais. Existe portanto atrás destes flashes cativantes de ritmo e graciosidade, toda uma vasta evolução que remonta a milhares de anos, onde o Gong Fu tem sofrido mutações e influências várias de ordem filosófica, geográfica ou política. O Gong Fu, pode ser traduzido literalmente como a obtenção de uma mestria técnica através do esforço de uma prática contínua, podendo-se aplicar às mais diversas actividades quotidianas. No entanto, para os chineses o exemplo perfeito de Gong Fu é o Wu (Guerra) Shu (Arte), ou Artes Marciais. Estudos arqueológicos revelaram a existência de alguns documentos iconográficos, indicando que as artes de luta estruturadas tiveram origem à mais de 5000 anos ou de que durante a dinastia Qin (221-207 a.C.) já se realizavam lutas de mãos nuas mediadas. De todas as evoluções, a mais conhecida e a que provavelmente teve mais impacto no desenvolvimento das artes marciais chinesas e asiáticas, foi a do Templo de Shao Lin. A chegada ao templo de Bodhidharma (Da Mo), o patriarca indiano do Budismo Chan (O Chan foi criado primeiro na China e no Japão (Zen) do que na Índia), marca no século VI o início histórico do Punho de Shao Lin (Shao Lin Quan). Da Mo era originário de uma casta real guerreira que praticava a arte marcial hindu Vajramushti. Sendo-lhe inicialmente negada a entrada para o templo, Da Mo entraria num estado de meditação durante nove anos, de onde através dos seus conhecimentos guerreiros e filosóficos culminaram dois documentos: o Shi Sui Jing e o Yi Jin Jing. O Primeiro reflectia-se no comportamento e espírito budista, o segundo no fortalecimento do corpo. Durante a dinastia Ming (1368-1644 d.C.), no século XV, Bai Yu Feng e o monge “Kwok Yuen” (que compilara os ensinamentos de Da Mo numa sequência de 72 movimentos) contribuíram com os seus conhecimentos, adquiridos nas suas investigações pela China, para a evolução do Shao Lin Quan. Esta inspirar-se-ia ainda na sequência dos cincos animais (Wu Qin Xi) do famoso médico Hua Tuo da dinastia dos Três Reinos (220-280 d.C.), que tinha como objectivo a conservação da saúde pela prevenção através de uma prática quotidiana destes exercícios. O resultado culminava na formação dos seguintes estilos: Dragão, Tigre, Leopardo, Serpente e Cegonha. Há ainda o famoso general Yu Fei que durante a dinastia Song (960-1279 d.C.) recebeu ensinamentos de um aluno de Shao Lin e criou o estilo da Águia onde deu bastante ênfase às técnicas de aprisionamento de articulações, as Chaves (Chin Na). Crê-se que ele possa ainda ter sido o responsável pela criação do estilo dito interno, Xing Yi Quan. Outro grande centro de influência da mutação do Gong Fu é a zona de templos da montanha de Wu Dan onde se desenvolveram parte das artes conhecidas como internas (Nei Jia), atribuindo a sua originalidade lendária a Zhang San Feng durante a dinastia Song. Mas o Tai Ji Quan, o Ba Gua Zhang e o Xing Yi Quan não foram criados aqui, sendo o primeiro criado por Chen Wan Ting, entre a dinastia Ming e a Qing (1644-1911 d.C.). Esta primeira arte como as outras fora inspirada no “I Ching”, na teoria do Yin e do Yang, entre outras artes ancestrais de luta e de meditação. Temos ainda as conquistas manchus que introduziram o Shuai Jiao, uma arte de projecções que provém da Mongólia. Os séculos XVII a XIX são prósperos na criação de novos estilos fora dos templos e no século XX assiste-se à criação de dois institutos que visavam a divulgação e ensino do Gong Fu: A Associação Desportiva do Conhecimento Marcial (Jing Wu Ti Yu Hui) de Shang Hai (Shangai-1909) e o Instituto Central de Arte Nacional (Zhong Yang Guo Shu Guan) de Nan Jin (Nanquin-1927). Neste último estabelece-se o estilo Chang Quan que engloba vários estilos de Gong Fu do norte sendo o percursor do Wu Shu Moderno pró-olímpico, que tem uma vertente mais competitiva/ desportiva do que marcial. Esta é apenas uma pequena amostra da evolução que o Gong Fu passou e não revela todo o enriquecimento técnico, filosófico e ético que o Gong Fu possui nem o caminho que um aluno tem que calcorrear para adquirir as capacidades técnicas e vencer os muitos trilhos que o poderão desviar dos valores da verdade e justiça, na construção de um mundo melhor do que aquele que encontrou. Sabendo que a melhor vitória e desafio é vencermos a nós próprios. O Gong Fu é por si próprio uma filosofia de vida! Daniel David , in Revista AEIST
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